Este guia foi elaborado com o propósito de fornecer um manual técnico completo e prático sobre a aplicação da hierarquia de controle prevista na NR 35, especificamente voltada à proteção contra quedas no trabalho em altura.
Ao longo do texto, apresentamos uma abordagem aprofundada, cobrindo desde o planejamento inicial e análise de risco, passando por cálculo de fator de queda e zona livre de queda (ZLQ), até a implantação de sistemas de proteção coletiva e individual, inspeção, manutenção e treinamentos.
1. Contexto Normativo e Fundamentação Técnica da Proteção Contra Quedas
1.1 A NR 35 e sua relevância para o trabalho em altura
A NR 35 estabelece requisitos obrigatórios para atividades realizadas a mais de 2 m de altura, visando proteger trabalhadores diante do risco de quedas. Estatísticas oficiais mostram que aproximadamente 40% dos acidentes de trabalho no Brasil envolvem quedas em altura, segundo Anuário Estatístico de Acidentes de Trabalho da Previdência Social. Esse percentual reflete diretamente no planejamento operacional, indicando a urgente necessidade de adoção de medidas preventivas robustas. Com a implementação da NR 35, observou-se uma redução nas quedas fatais, chegando até a metade em relação à década anterior .
1.2 Mensagem central da norma: Proteção Contra Quedas
O princípio central da NR 35 é transformar a execução de tarefas em altura em processos seguro, exigindo que:
- A atividade seja planejada e analisada metodicamente;
- Sejam previstas situações de emergência e resgate;
- O trabalho seja feito com máxima segurança possível, evitando exposições desnecessárias.
1.3 Hierarquia de controle – níveis preventivos
A norma estabelece uma hierarquia rígida de medidas de controle, aplicada sequencialmente para garantir a redução máxima de riscos em cada estágio do projeto:
- Evite exposição : redesenho de tarefas para eliminar a necessidade de trabalho em altura sempre que possível;
- Eliminar riscos por meio de Sistemas de Proteção Coletiva Contra Quedas (SPCQ), como guarda-corpos e redes de proteção;
- Minimizar consequências da queda com Sistemas de Proteção Individual Contra Quedas (SPIQ), incluindo talabartes com absorvedores e linhas de vida;
- Proteção individual isolada, usada somente quando as etapas anteriores não forem viáveis.
Essa abordagem sistêmica assegura que decisões de controle de risco sejam feitas da fonte até a última alternativa disponível, garantindo níveis máximos de proteção.
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2. Primeira Etapa: Evitar a Exposição
2.1 Planejamento e Alternativas Técnicas
Evitar a exposição ao trabalho em altura é a medida mais eficaz da hierarquia de controle. Antes de qualquer atividade, é indispensável considerar alternativas que eliminem completamente a necessidade de trabalho em altura. Algumas estratégias recomendadas incluem:
- Inspeção remota: usando drones ou câmeras inteligentes para examinar condições estruturais ou mecânicas sem expor o trabalhador à altura.
- Uso de plataformas elevatórias: plataformas móveis (PETMs) permitem acesso seguro até 11 m de altura sem risco de queda. Estas são regulamentadas pela NR 18 e, quando combinadas com NR 35, limitam o uso em ventos superiores a 40 km/h.
- Redesenho estrutural: adaptar projetos para que elementos como manutenção, inspeções e reparos ocorram ao solo ou em plataformas fixas com guarda-corpo integrado.
2.2 Avaliação de Riscos e Fase de Concepção
Durante a Análise de Risco (AR), prevista na NR 35, deve-se questionar: “Existe forma de eliminar a exposição em altura?” A AR exige a consideração de fatores como:
- Condições ambientais (vento, chuva, iluminação).
- Estrutura de trabalho e acesso.
- Possibilidade de substituição do método.
- Tecnologias disponíveis para realização remota ou com acesso ao solo.
2.3 Critério de Parada: Proteção Contra Quedas
Se as avaliações indicarem condições meteorológicas adversas — como ventos acima de 40 km/h —, a operação deve ser suspensa imediatamente, conforme NR 35 e NR 34 .
3. Segunda Etapa: Proteção Coletiva (SPCQ)
3.1 Definição e Componentes
A Proteção Coletiva (SPCQ) compreende sistemas e dispositivos instalados no ambiente de trabalho com o objetivo de prevenir quedas e minimizar riscos para todos os trabalhadores que atuam em altura. Ao contrário da proteção individual, que depende do uso e comportamento do trabalhador, a SPCQ atua como uma barreira física ou mecanismo de segurança contínuo, dispensando ações humanas diretas para sua efetividade.
Entre os principais componentes da proteção coletiva estão:
- Guarda-corpos: estruturas fixas instaladas em bordas, platôs, telhados e bordas de mezaninos para impedir a queda acidental. Devem ter altura mínima e resistência adequada conforme normas técnicas.
- Redes de proteção: instaladas abaixo da área de trabalho em altura para conter a queda de pessoas ou objetos, protegendo também quem está no nível inferior.
- Fechamentos de aberturas: vedação de aberturas em pisos, coberturas, ou paredes que possam representar risco de queda. Pode incluir grades, tampas fixas ou móveis com travamento seguro.
Como sistemas passivos, a proteção coletiva apresenta vantagens significativas, pois não requer a ação constante do trabalhador para funcionar, reduzindo falhas humanas e aumentando a segurança geral do ambiente.
3.2 Projeto e Validação Técnica
A implantação eficaz da Proteção Coletiva exige um projeto técnico rigoroso, elaborado e validado por profissional habilitado, preferencialmente engenheiro de segurança do trabalho ou engenheiro civil com conhecimento em normas de segurança.
Os principais aspectos do projeto incluem:
- Conformidade normativa: Os sistemas devem atender às normas técnicas brasileiras específicas, como:
- NBR 14718: especifica os requisitos para projeto, fabricação e instalação de guarda-corpos em áreas de circulação e trabalho.
- NBR 1263: define critérios para redes de proteção, incluindo resistência, dimensionamento e método de fixação.
- NBR 14198: para coberturas e fechamentos de aberturas.
- Integração com o PCMAT/PGR: O Plano de Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construção (PCMAT) ou o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) devem incluir a proteção coletiva como parte das medidas de controle, garantindo a coerência entre projeto, execução e gestão da segurança.
- Avaliação estrutural: Os componentes devem ser dimensionados para resistir às cargas previstas, incluindo peso de trabalhadores, impactos e esforços dinâmicos, garantindo segurança mesmo em situações adversas.
- Manutenção e inspeção periódica: O projeto deve prever procedimentos para inspeção, manutenção preventiva e corretiva da proteção coletiva, assegurando sua funcionalidade contínua.
A implementação de sistemas de proteção coletiva, quando corretamente projetada e validada, tem um papel crucial na redução dos acidentes com quedas, sendo recomendada como prioridade nas etapas de planejamento de trabalhos em altura, conforme previsto na NR-35 e outras regulamentações de segurança do trabalho.
4. Terceira Etapa: Redução de Consequências (SPIQ)
4.1 Componentes do Sistema de Proteção Individual contra Quedas (SPIQ)
O SPIQ é a última linha de defesa na proteção contra quedas em trabalhos em altura e tem como objetivo principal minimizar as consequências e danos no caso de uma queda efetiva. Para isso, o SPIQ é composto por um conjunto integrado de elementos que trabalham juntos para garantir a segurança do trabalhador:
- Ponto de ancoragem: Deve ser dimensionado e instalado conforme análise de risco específica do local e tipo de atividade. O ponto de ancoragem funciona como o elemento fixo que suporta toda a força gerada durante uma queda. Pode ser um componente estrutural (viga, coluna, estrutura metálica) ou dispositivos projetados para esse fim, que precisam estar certificados e seguir critérios rigorosos de resistência.
- Elemento de ligação: Inclui talabartes, cabos, fitas ou dispositivos retráteis de trava-quedas, que conectam o cinturão ou talabarte ao ponto de ancoragem. Esses componentes são responsáveis por absorver parte da energia da queda e permitir a movimentação segura do trabalhador durante a execução das atividades. Alguns dispositivos possuem sistemas de absorção de energia integrados para reduzir o impacto.
- Equipamento de proteção individual (EPI): O cinturão tipo paraquedista (também chamado de cinturão para trabalho em altura ou cinturão com talabarte) é projetado para distribuir as forças de impacto pelo corpo, minimizando lesões. Deve estar em perfeito estado, com certificação conforme normas brasileiras (exemplo: ABNT NBR ISO 10333) e ser escolhido conforme o tipo de trabalho, altura, e necessidades específicas do trabalhador.
4.2 Forças e Limite de Impacto na Hierarquia de Proteção Contra Quedas
Um dos aspectos mais críticos do SPIQ é o controle das forças geradas durante uma queda, que podem causar lesões graves ou fatais se não forem adequadamente limitadas. Para isso, normas técnicas e regulamentações estabelecem parâmetros claros:
- Força máxima no usuário: A força de impacto que chega ao trabalhador não deve exceder 6 kN (quilo-newtons). Esse limite é fundamental para reduzir os riscos de traumas físicos, como lesões na coluna, fraturas ou danos internos.
- Fator de segurança: Os componentes do SPIQ devem apresentar um fator de segurança mínimo de 2:1, ou seja, devem resistir a uma carga de no mínimo 12 kN em ensaios estáticos para garantir margem suficiente contra falhas.
- Dispositivos de absorção de energia: Para limitar a força de impacto, muitos talabartes e trava-quedas são equipados com sistemas de absorção que desaceleram a queda de forma controlada, dissipando a energia gerada. Esses dispositivos são fundamentais para evitar a transmissão de forças excessivas ao corpo do trabalhador.
- Importância da distância de queda: O sistema deve ser instalado considerando a distância livre de queda para que o trabalhador não colida com o chão ou outros obstáculos durante o incidente. O cálculo correto da distância mínima é essencial para a efetividade da redução de consequências.
4.3 Normas e Regulamentações Aplicáveis
- A NR-35 (Norma Regulamentadora para Trabalho em Altura) determina a obrigatoriedade do uso do SPIQ em atividades que envolvam risco de queda, incluindo requisitos para seleção, uso e manutenção dos equipamentos.
- As normas ABNT NBR ISO 10333 e NBR 14626 estabelecem os requisitos técnicos para EPIs e sistemas de ancoragem, respectivamente.
- Além disso, a Portaria MTB nº 3214/1978 (com suas atualizações) reforça as diretrizes para o uso de equipamentos e a segurança dos trabalhadores.
4.4 Boas práticas para o uso do SPIQ
- Realizar treinamento específico para os trabalhadores sobre o correto uso, inspeção e manutenção dos equipamentos.
- Garantir que o sistema de ancoragem seja sempre inspecionado antes do uso para verificar possíveis desgastes, corrosão ou danos.
- Utilizar somente equipamentos certificados e dentro do prazo de validade, substituindo imediatamente qualquer componente comprometido.
- Planejar o trabalho para que a distância de queda e o espaço para a ativação do sistema de absorção estejam garantidos, evitando acidentes adicionais durante a queda.
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5. Fatores Técnicos: Fator de Queda, ZLQ e Compatibilidade
Fator de queda
É a relação entre altura da queda e comprimento do talabarte. Manter fator ≤ 1 reduz a energia de impacto — valores maiores aumentam o risco de ruptura.
Zona Livre de Queda (ZLQ)
Importante para evitar colisão com estruturas abaixo. A fórmula padrão é: ZLQ = LT + AAE + PT + DS, onde LT = comprimento do talabarte, AAE = absorvedor, PT = distância ao ponto de ancoragem, DS = margem mínima de 1 m .
Compatibilidade técnica
Ancoragem, talabarte e trava-quedas devem ser compatíveis entre si e com o tipo de atividade, uso de nós, tipos errados de conectores e absorvedores fora do projeto são proibidos.
6. Gestão de Campo e Procedimentos da Hierarquia de Proteção Contra Quedas
6.1 Estrutura de Autorização e Planejamento
Para garantir a segurança nas atividades em altura, especialmente as não rotineiras, é fundamental a adoção rigorosa de processos formais de autorização e planejamento. A Permissão de Trabalho (PT) é o documento-base que assegura a análise detalhada dos riscos envolvidos e a preparação adequada da equipe. Ela deve contemplar:
- Plano de risco detalhado: Identificação minuciosa dos perigos associados à tarefa, com medidas específicas de controle e prevenção, incluindo análise de possíveis situações de emergência.
- Equipe responsável: Registro claro das pessoas designadas para executar e supervisionar a atividade, com suas respectivas qualificações e atribuições, garantindo que somente trabalhadores treinados estejam envolvidos.
- Prazos e condições de execução: Definição dos períodos em que o trabalho pode ser realizado, considerando condições climáticas, disponibilidade dos equipamentos e organização do ambiente para minimizar riscos.
- Conformidade com a NR-35: A permissão deve atender a todos os requisitos previstos na norma regulamentadora, que estabelece critérios para trabalho seguro em altura.
Esse processo formal garante que cada atividade seja cuidadosamente planejada e monitorada, prevenindo falhas e acidentes.
6.2 Inspeção e Manutenção do SPIQ
O sistema de proteção individual contra quedas (SPIQ) depende diretamente de equipamentos e componentes que requerem cuidados constantes para garantir sua eficácia. O programa de inspeção e manutenção deve seguir três níveis principais:
- Inspeção inicial: Realizada antes da primeira utilização do equipamento, para certificar que todas as partes estão em perfeito estado, devidamente certificadas e instaladas conforme as especificações técnicas.
- Inspeção rotineira: Deve ser feita antes de cada uso, verificando sinais de desgaste, corrosão, danos mecânicos, integridade dos talabartes, travas e pontos de ancoragem. Essa inspeção rápida é crucial para evitar o uso de equipamentos comprometidos.
- Inspeção periódica: Realizada por profissional habilitado, no mínimo uma vez ao ano, para avaliação detalhada das condições dos equipamentos, testes de resistência e verificação da documentação técnica.
Procedimentos em caso de identificação de danos:
Qualquer componente que apresente danos, desgaste excessivo, deformações ou falhas deve ser imediatamente retirado de uso. Equipamentos danificados devem ser encaminhados para manutenção ou descarte, conforme orientação técnica do fabricante e normas aplicáveis. Essa prática é essencial para evitar falhas durante a operação e garantir a segurança dos trabalhadores.
6.3 Capacitação e Cultura de Segurança na Hierarquia de Proteção Contra Quedas
A gestão de campo eficaz inclui a formação contínua e a construção de uma cultura sólida de segurança. Todos os trabalhadores, supervisores e envolvidos em atividades em altura devem receber:
- Treinamento conforme NR-35: Abrangendo fundamentos teóricos e práticos, o treinamento deve incluir o entendimento das características técnicas do SPIQ, manuseio correto dos equipamentos, práticas seguras e reconhecimento dos riscos associados.
- Testes práticos: Simulações e exercícios práticos são indispensáveis para garantir que os trabalhadores saibam utilizar corretamente o SPIQ, identificar falhas e reagir adequadamente em situações de emergência.
- Clareza sobre responsabilidades: Todos devem compreender seus papéis e obrigações dentro do processo de segurança, reforçando a importância do trabalho em equipe e da comunicação constante.
- Procedimentos de emergência: Preparação para situações de queda, incluindo protocolos de resgate rápido, primeiros socorros e comunicação eficiente, garantindo a resposta imediata e adequada a qualquer incidente.
Desenvolver uma cultura de segurança sólida faz com que a prevenção seja parte natural da rotina, aumentando a eficácia dos sistemas de proteção e reduzindo a ocorrência de acidentes.
7. Conclusões e Recomendações Técnicas
A proteção contra quedas em trabalhos em altura deve seguir uma abordagem integrada, que priorize a eliminação do risco na origem sempre que possível. Quando isso não for viável, a proteção coletiva deve ser a solução preferencial, oferecendo barreiras físicas confiáveis e independentes da ação do trabalhador.
Na impossibilidade de eliminar ou controlar totalmente o risco por meio da proteção coletiva, o uso do Sistema de Proteção Individual contra Quedas (SPIQ) é fundamental para reduzir as consequências de uma queda, desde que aplicado com análise adequada do fator de queda e da Zona Livre de Queda (ZLQ), além de inspeção e manutenção rigorosas.
Para garantir a efetividade das medidas, é imprescindível uma gestão contínua que envolva planejamento, inspeção, treinamento e protocolos de emergência.
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